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Racionalidade na Prática (13/07/2010)
Revista Prisma - Alvenaria Estrutural com Blocos de Concreto

De outubro de 2008 a abril de 2009, o pesquisador Alberto Casado recebeu uma série de gráficos e tabelas semanais que resumiam o andamento das obras de vedação do edifício Aroeira, residencial de nove pavimentos localizado no bairro do Poço, em Recife. Em seu laboratório na Universidade de Pernambuco, onde pesquisa novas tecnologias para a construção civil, Casado compilava três índices: a perda de blocos de concreto, de argamassa e o nível de produtividade da mão de obra.

A atividade de coleta e análise de dados pode parecer simples, mas foi apenas a etapa final de um trabalho iniciado há 30 meses que mobilizou dezenas de colaboradores de diferentes segmentos da sociedade.

O edifício Aroeira é um dos cinco blocos do Sítio Donino, condomínio-clube de 7 mil m2 numa das áreas urbanas mais arborizadas da capital pernambucana. Suas obras de vedação foram acompanhadas de perto pela Comunidade da Construção do Recife, grupo coordenado pela ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland), que reúne construtoras, fornecedores e pesquisadores para incentivar práticas construtivas racionais nos sistemas à base de cimento.

Com o monitoramento da Comunidade, batizado de Programa Obras Monitoradas, a execução da parede do Aroeira alcançou índices recordes de racionalização. O desperdício de blocos foi de apenas 2% contra média nacional de 13%. A economia de argamassa foi ainda maior, com perda de 10,3%, em média, comparada a índices que oscilam de 26% e 205% de desperdício. A produtividade ficou dentro da média brasileira, com índice de 0,84 homem x hora por metro quadrado.

Para Alberto Casado, coordenador do Obras Monitoradas, três fatores influenciaram os altos índices de racionalização: a elaboração de um projeto de alvenaria detalhado e seguido à risca, o treinamento da equipe antes e durante as obras e o uso de blocos pré-moldados de concreto, material que por sua regularidade dimensional ajuda a reduzir desperdícios.

“A alvenaria de vedação com blocos pré-moldados é mais cara. No entanto, com o planejamento e controle de todas as fases da obra é possível diminuir desperdícios e começar a ter vantagem de custo na obra como um todo”, afirma Casado.

Projeto-piloto
A escolha do edifício Aroeira como projeto-piloto da Comunidade da Construção aconteceu no final de 2007, quando a Regional Norte/Nordeste da ABCP, com sede em Recife, realizou um curso para a divulgação do programa Obras Monitoradas. A construtor Conic & Souza Filho ficou interessada e se inscreveu.

“A condição foi que começássemos pelo edifício Aroeira, com vedação em blocos de concreto, e sem seguida construíssemos o segundo prédio de condomínio com vedação em blocos cerâmicos. Com isso, poderíamos comparar os dois sistemas e descobrir qual era o mais viável, não apenas economicamente, mas também em relação à sustentabilidade”, relembra Lucian Fragoso, diretor comercial da Conic.

A partir daí, uma série de reuniões técnicas entre a construtora e a ABCP definiram a tecnologia adequada e os fornecedores de blocos e argamassa. Uma das etapas mais decisivas veio logo em seguida: a elaboração de um projeto de alvenaria integrado aos demais sistemas da obra. “O projeto foi o mais detalhado possível, pois não queríamos que as decisões fossem tomadas no canteiro de obra. Criamos planilhas de execução de paredes prevendo o avanço da obra semana a semana”, recorda Fragoso.

A execução da alvenaria teve início em outubro de 2008. Antes disso, os funcionários receberam treinamento específico para seguir fielmente os projetos. Com as medições semanais da Comunidade da Construção, o resultado de dez meses de planejamento começou a aparecer e o Aroeira a chamar a atenção de construtoras locais e de outros estados.

“Implantar esse sistema construtivo no Recife foi um marco, já que ele é relativamente novo no Nordeste”, afirma Emanuelle Pontes, representante da ABCP de Pernambuco e Paraíba e uma das responsáveis pelo Programa Obras Monitoradas. “As pessoas costumam dizer que a alvenaria cerâmica é mais barata, mas mostramos na prática que a alvenaria de concreto é competitiva”.

Para Pontes, o monitoramento do Aroeira trouxe duas contribuições principais: a primeira, a definição de uma metodologia que permite medir com segurança o desempenho do sistema de alvenaria no edifício. A segunda, o desenvolvimento de uma tecnologia própria de redução de desperdícios, que pode ser replicada em todo o país.

A experiência do Obras Acompanhadas no edifício Aroeira também virou tema de estudo científico. Alberto Casado sintetizou as etapas do programa e os resultados e percorre o Brasil apresentando o projeto em seminários, palestras e cursos. A Regional N/NE da ABCP, através da Comunidade da Construção e de consultorias presenciais, também oferece o know-how adquirido com o projeto para as construtoras interessadas.


Custos menores, menos desperdício
Fragoso calcula que o acompanhamento da Comunidade da Construção resultou em uma economia global de 1% da obra do edifício Aroeira, ou cerca de R$130 mil. “Uma obra que utiliza cerâmica para a vedção custa 8% ou 10% menos que uma obra com blocos de concreto. No edifício Aroeira, conseguimos uma economia de 5% a 8% em relação aos projetos em que usamos vedação cerâmica”.

Para Fragoso, a esse resultado econômico soma-se o benefício da construção sustentável, pois há um descarte residual muito maior com a cerâmica. “Em nosso projetos, perdemos cerca de 10% dos blocos cerâmicos. Já com sistemas à base de cimento antigimos um índice de apenas 2,7% de perda”, comemora Fragoso.