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Pavimentos Intertravados: Cuidados na Concepção e na Construção (13/09/2010)
Revista Prisma - Pavimento intertravado

O pavimento com peças pré-moldadas de concreto teve seu desenvolvimento acelerado na Europa nas obras de reconstrução após a 2ª Guerra Mundial e desde os anos 1950 tem sido usado no Brasil. Entretanto, por razões diversas, que passam pelo descaso ou inadvertência na concepção de projeto, até o desconhecimento de processo executivo, tem-se observado no meio técnico a idéia de que esse tipo de pavimento é apenas uma alternativa às pavimentações “tradicionais”.

Com certeza, tal conceito não retrata a importância dos pavimentos intertravados e não faz jus à tecnologia hoje desenvolvida. A ciência desse fato permite atrever-se mesmo à afirmação de que o futuro da pavimentação urbana encaminha-se para o pavimento intertravado. Mas a restruturação de valores passa pelo conhecimento histórico, as razões dos sucessos, bons e mais, e a evolução dos processos.

É notória a adoção desadvertida dos mais variados formatos de peças pré-moldadas de concreto em projetos para áreas que estão sujeitas a solicitações, senão de altas magnitudes e freqüência, de significativa monta no que tange ao comprometimento da durabilidade do pavimento. Um dos casos mais comuns dessa aplicação é em áreas de acesso de postos de combustível, onde, invariavelmente, encontram-se depressões formando trilhas de roda, peças deslocadas ou soltas, desgaste acentuado, quebra de peças e ocorrências de toda sorte. Trata-se de defeito crônico que pode ser evitado com a adequada concepção de projeto, incluindo-se a memória de cálculo, especificações precisas de materiais (características tecnológicas e tipos das peças) e recomendações de execução.


Projeto adequado
Tendo-se um projeto adequado de pavimento intertravado e partindo do princípio da obediência ao que nele estiver preconizado, as possibilidades de insucesso são praticamente nulas. Embora seja conhecido como pavimento drenante, os princípios da pavimentação referentes à estabilidade de camadas são fundamentais para o adequado desempenho do pavimento. Portanto, não se deve relegar a um segundo plano os cuidados no projeto de drenagem. É obrigatório conferir o local para determinar direções da água, pontos de drenagem e avaliar as condições de cheias. Esse cuidado evitará o acúmulo de água, o que poderia promover a erosão do subleito e sub-base e, como conseqüência, o mau desempenho do pavimento como um todo.

A estabilidade sob um pavimento intertravado é alcançada de vários modos. Desde a simples compactação do subleito, passando pela adoção de uma camada de sub-base de material selecionado (reforço), até a concepção de uma base de material cimentado. Portanto, a verificação da qualidade dessas camadas quando da construção do pavimento é a forma de se prever o comportamento de se tentar garantir o alcance das características almejadas em projeto.

Ensaios de resistência dos materiais e de comprovação de adequada aplicação, como por exemplo, grau de compactação, são essenciais. Uma vez verificada deficiência na fundação do pavimento (incluindo subleito, sub-base e base), pode-se optar por reforçá-lo quando da disponibilidade de greide, por reconstruir a camada – o que, por sua vez, pode ser equivalente a reconstruir o pavimento – ou por restringir a solicitação.

Em suma, o atendimento às especificações de projeto e às normas de controle tecnológico é condição sine qua non nessa fase, já que essas camadas constituem a capacidade estrutural propriamente dita.


Qualidade na execução
Quando da construção da cama de rolamento (assentamento das peças de concreto), tem-se o hábito de exigir ótima qualidade nas obras – é uma tônica do proprietário ou do responsável direto – mas, paradoxalmente, não está arraigado o costume de se verificar a qualidade almejada, ou melhor, o controle de qualidade é quase sempre, quando feito, reduzido a uma quantidade insuficiente de ensaios para análise estatística representativa de toda a área pavimentada. Tal fato é razão suficiente para estimular o “mercado de fundo de quintal” na produção de peças pré-moldadas de concreto para pavimentação, o qual, obviamente, não está comprometido com a durabilidade dos pavimentos intertravados.

O comportamento desse tipo de pavimento depende muito do intertravamento das peças, sua justaposição e, fundamentalmente, da interação entre elas, proporcionada por atrito lateral, por meio de um agente de ligação, que é uma camada de areia.

Dada a importância desse intertravamento, garantir o total preenchimento do vão entre as peças é essencial. Assim, promove-se a compactação das peças ainda sem rejuntamento, para que possa haver penetração no colchão de assentamento e, consequentemente, o travamento da base inferior das peças pelo refluxo da areia do colchão de assentamento.

Nesse momento, é comum a quebra de algumas peças que, independentemente da razão da ocorrência devem ser substituídas. Embora pareça um procedimento simples, recomenda-se atenção ao número de quebras, pois podem traduzir, ainda que de uma maneira subjetiva, a fragilidade das peças em função da energia empregada na compactação, da inadequada granulometria da areia que compõe o colchão de assentamento e, mesmo que não quantitativamente, da variação de produção das peças quanto ao atendimento à resistência mecânica.


Areia e granulometria
A areia destinada ao colchão de assentamento deve conter finos suficientes e, no momento da aplicação, ter baixa umidade (preferencialmente seca), além de ser colocada sem compactação, de tal forma que favoreça o refluxo e travamento inferior das peças quando da compactação. Entretanto, a exigência quanto à qualidade da areia de rejuntamento é muito maior, pois esse material deve penetrar numa fina junta com largura de cerca de 3mm e preencha-la totalmente. Esse efeito, análogo ao funcionamento de uma ampulheta, requer areia seca e de granulometria adequada, além de grãos de faces lisas. São várias as faixas granulométricas recomendadas que se encontram na bibliografia pertinente, portanto, à escolha deve basear-se nas características já citadas.

O processo de intertravamento depende também da manutenção da posição das peças, ou seja, da constância relativa entre elas, o que, por sua vez, é obtida por meios de confinamentos, tanto das bordas externas do pavimento quanto das internas (encontros com outras estruturas: caixas de passagem, poços de visita, etc.).

Durante a execução, quando da colocação das peças,além do confinamento das bordas do pavimento é possível que haja a necessidade de confinamentos provisórios, que limitam o encontro com outra estrutura ainda por executar ou, até mesmo, por definir. Parece óbvio que a resistência dos dispositivos de confinamento – geralmente um artefato de concreto – não deve ser inferior à das peças do pavimento, embora seja comum a recomendação de no mínimo 25 MPa.

Autor: Dalter Pacheco Godinho, Engenheiro, Consultor Técnico e Diretor da Base Engenharia